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Dois em cada três estudantes de medicina têm sintomas depressivos moderados ou graves, diz estudo

há 1 minuto
3 min de leitura

Pesquisa com mais de mil estudantes de medicina de 74 faculdades brasileiras indica falta de tempo como principal fator




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Nas redes sociais, a estudante de medicina Natália Barros, 22, gosta de compartilhar a rotina acadêmica com os seguidores. As publicações mostram fotos de jaleco e bastidores da faculdade. O que não aparece nos posts é todo o impacto que o curso tem provocado em sua saúde mental.


Estudante do terceiro ano da Unifesp, Natália deixou João Pessoa (PB) para morar em São Paulo. Ela relata cansaço, dificuldade de concentração, alterações no sono e perda de apetite, sintomas depressivos que associa à falta de tempo imposta pela rotina da graduação.


As atividades físicas e os hobbies foram os primeiros itens a sair da agenda após entrar na graduação em medicina. Trocou a academia pela aula de balé por ser apenas uma vez na semana. “A última vez que eu senti que tinha tempo de sobra foi nas férias, quando não fiz nada. Só vivi minha vida alheia à faculdade”, diz.


Natália não é a única estudante da graduação no país a sofrer pela falta de tempo por conta da rotina. Um estudo publicado na Brazilian Journal of Psychiatry, intitulado “Ambiente de aprendizagem, fatores de estresse acadêmico e aspectos institucionais como determinantes dos desfechos de saúde mental na educação médica”, mostrou que 2 em cada 3 estudantes de medicina ouvidos (66%) apresentaram sintomas de depressão moderada a grave.


Conduzida por pesquisadores do CISM (Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental), a pesquisa ouviu 1.026 estudantes de 74 instituições públicas e privadas. Metade também apresentou sintomas de ansiedade (50,5%).


Os índices encontrados no Brasil estão acima das estimativas globais para estudantes de medicina. No mundo, 27,2% apresentam sintomas de depressão e 33,8%, de ansiedade durante a formação médica.


A falta de tempo foi o estressor mais citado, seguida por questões ligadas ao desempenho acadêmico, relacionamentos, preocupações com a saúde e dificuldades de aprendizagem.


Para o psiquiatra Rodolfo Furlan Damiano, pesquisador do CISM e um dos responsáveis pelo estudo, o problema está na naturalização do sofrimento como parte da formação. “Infelizmente, isso faz parte do que a gente chama de currículo oculto, que é uma questão tacitamente passada de que sofrer faz parte, de que a falta de tempo faz parte. É passado de geração em geração.”


A coleta ocorreu entre setembro de 2023 e setembro de 2024 e incluiu voluntariamente estudantes de medicina com 18 anos ou mais, do primeiro ao sexto ano.


Para identificar sintomas depressivos, foi utilizado um questionário com nove itens, chamado PHQ-9, que avalia a ocorrência de sintomas nas duas semanas anteriores. A pontuação varia de 0 a 27 e classifica os sintomas como mínimos, leves, moderados, moderadamente graves ou graves.


ansiedade foi avaliada pelo GAD-7, escala de sete perguntas que atribui pontuações de 0 a 21 e classifica os sintomas em níveis mínimo, leve, moderado ou grave.


Além disso, os pesquisadores também aplicaram o JHLES, instrumento que avalia a percepção dos alunos sobre o ambiente de aprendizagem. Por fim, a MSSF, escala desenvolvida e validada pelo grupo de pesquisadores brasileiros, foi utilizada para avaliar os fatores de estresse.


Os resultados mostram diferenças na percepção do ambiente acadêmico de acordo com o tipo de instituição. Alunos de universidades privadas avaliaram de forma mais positiva o ambiente de aprendizagem, principalmente as relações com professores e o clima acadêmico. Estudantes de universidades públicas apresentaram mais estresse relacionado a notas e avaliações.


A experiência relatada por Natália se aproxima desse resultado da pesquisa. Nos dois primeiros anos do curso, ela diz ter enfrentado dificuldades de comunicação com professores.


Ela também relata episódios de competição entre estudantes. Para ela, a pressão acadêmica pode fazer com que alguns alunos deixem de compartilhar materiais de estudo, como slides, com colegas.


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