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Super El Niño vai afetar Goiás com calor extremo e risco de incêndios; pico será entre setembro e outubro

  • há 18 minutos
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Operações integradas de prevenção são implementadas em Goiás para lidar com os efeitos do Super El Niño




Jornal Opção





Goiás se prepara para enfrentar, entre setembro e outubro deste ano, o pico de um Super El Niño que coincide com a fase mais crítica de propagação de incêndios florestais no estado. Enquanto agências internacionais apontam 96% de probabilidade de o fenômeno atuar plenamente até fevereiro de 2027, o governo estadual coloca em prática operações integradas de prevenção.


O El Niño é um fenômeno natural que, embora se origine a milhares de quilômetros de distância, altera profundamente o clima em Goiás.


Em entrevista ao Jornal Opção o gerente do Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo), André Amorim, detalha o mecanismo. “O El Nino é o aquecimento anômalo das águas do Pacífico Equatorial. (…) devido a alguns movimentos, essa água começa a aquecer, e com esse aquecimento nós temos uma alteração nas correntes de vento”. 


Por conta dessa mudança na circulação atmosférica, o regime de chuvas se inverte em várias regiões do planeta. No Brasil, enquanto o Sul recebe precipitações volumosas, o Centro-Oeste e o Norte-Nordeste encaram escassez. 


O que antecipam as pesquisas?


Uma nota técnica elaborada por pesquisadores do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) indica que os modelos climáticos internacionais já sinalizam um El Niño forte ou muito forte para o biênio 2026/2027. O boletim recorda que a temporada 2023/2024, sob efeito do mesmo fenômeno, resultou na maior seca em 70 anos no Brasil. 


Em setembro de 2024, 4.748 municípios, cerca de mais de 80% do total, enfrentaram algum grau de estiagem, sendo que 1.349 deles viveram condições severas ou extremas.


Agora, o Cemaden frisa que os impactos podem se repetir, com ondas de calor ainda mais intensas, capazes de aumentar o risco de incêndios e provocar danos à saúde da população também no Sudeste e no Nordeste.


Como o governo irá lidar com isso?


Diante desse horizonte, o governo federal tomou a dianteira e antecipou seu planejamento. O Ibama contará, em 2026, com um efetivo recorde de 4.410 brigadistas, somando profissionais do próprio instituto e do ICMBio, dos quais mais da metade é formada por indígenas. Além disso, a estrutura operacional inclui aproximadamente 400 veículos especializados e 18 aeronaves.


O órgão também programa a realização de queima prescrita em 200 mil hectares de áreas públicas e já começou a emitir alertas para propriedades localizadas em zonas de alto risco. O primeiro decreto, publicado na semana passada, notificou 547 fazendas no Pantanal. “O planejamento de 2026 foi totalmente influenciado pela previsão do El Niño.


Já havia a expectativa desde o ano passado, só não sabíamos a intensidade”, explicou Jair Schmitt, presidente interino do Ibama, em posicionamento público.


Em paralelo, o Ministério do Meio Ambiente publicou portaria que declara emergência ambiental por risco de incêndios florestais em áreas vulneráveis, e o Ministério das Cidades investe R$ 33,5 bilhões em obras de drenagem e contenção de encostas, além de outros R$ 25 bilhões no abastecimento de água, com atenção especial ao Norte.


Como fica Goiás? 


No âmbito estadual, Goiás está mobilizando sua estrutura. Segundo André Amorim, o estado já conta, há cinco anos, com a Operação Goiás Alerta e Solidário, que articula ações tanto para a seca quanto para o período chuvoso.


“Estamos junto com a Operação Cerrado Vivo, com a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros. As secretarias já estão à par da situação, então cada um dentro do seu viés, dentro da sua área de trabalho, começa a desenvolver atividades para que os efeitos não sejam tão ruins”, relata. 


Contudo, o gerente do Cimehgo ressalta que a eficácia do poder público esbarra na falta de consciência de parte da população. Para exemplificar, ele cita um caso recente ocorrido nas imediações do Shopping Passeio das Águas, em Goiânia. 


“Ontem alguém foi lá e colocou fogo em uma área com mato seco, aí a pessoa pensa que está ajudando fazendo uma limpeza do local mas ela causou um grande problema com fuligem e poluição atmosférica. Isso só traz problemas”. Na avaliação do meteorologista, atitudes como essa se tornam ainda mais danosas porque encontram uma vegetação ressecada pela estiagem, criando um ambiente ideal para a propagação descontrolada do fogo.


Com a expectativa de um El Niño de intensidade moderada a forte, classificação feita por Amorim e que, segundo ele, “já é péssimo pra gente”, Goiás deve reviver o roteiro de 2023/2024. Naquele período, a temperatura da superfície do Pacífico atingiu 2 graus acima da média, e a capital experimentou sucessivas ondas de calor com máximas de 34 e 35 graus em outubro, mês que historicamente já deveria registrar condições mais amenas. 


“Passamos uma semana com aquele calorão, às vezes chovia ali em setembro, outubro, mas não resolvia o problema, porque a chuva não consolidava, ela ficava só chove/para, chove/para, e eram chuvas de baixo volume ou em tempestades”, recorda.


Essa irregularidade não apenas prolonga o desconforto térmico nas cidades como também desorganiza todo o planejamento do produtor rural, que perde sementes e precisa replantar lavouras, acumulando prejuízos.


Embora o El Niño seja um evento natural, cientistas informam que as mudanças climáticas tendem a intensificar seus extremos. O próprio André Amorim observa essa aceleração e explica que “há uma aceleração do aparecimento desses fenômenos e eles ficam cada vez mais extremos. Eles estão sempre trazendo problemas.” De fato, pesquisas internacionais mostram que os intervalos entre os chamados “super” El Niños estão diminuindo, o que agrava a vulnerabilidade de regiões como o Centro-Oeste brasileiro.


O que fazer quando o pico do El Niño chegar? 


O Cimehgo orienta a população a adotar medidas práticas de preparação e a acompanhar diariamente os boletins informativos. Para quem sofre com o calor, a recomendação é investir em climatizadores ou ar-condicionado, atentando para o fato de que a tarifa de energia provavelmente atingirá a faixa vermelha. Além de, claro, muita hidratação.


A economia de água também se torna crucial, pois “os rios vão sofrer, então uma sequência de dias sem chuvas vai chegar aqui”, ressalta Amorim. As precipitações esparsas que ainda ocorrem durante a estiagem funcionam apenas como paliativos e não revertem o déficit hídrico.


A previsão é de que o próximo período chuvoso chegue desorganizado e se estenda de forma irregular até abril de 2027. 


Com isso, o apelo do gerente do Cimehgo é para que “todos se unam”. Estamos com ações junto com o governo do Estado de Goiás, mas a população precisa ajudar também. É necessário consciência”.

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