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Inadimplência do agronegócio dispara e Goiás soma R$ 19,8 bilhões em crédito atrasado

há 14 minutos
3 min de leitura

Atrasos saltam de R$ 2 bilhões para R$ 48 bilhões em cinco anos no País e crise de liquidez acelera processos de recuperação judicial e leva bancos a executarem garantias



O Hoje




O agronegócio brasileiro enfrenta uma escalada de endividamento que contrasta com a estimativa de safra recorde de 360,8 milhões de toneladas para 2025/26.


A inadimplência do setor alcançou R$ 48 bilhões em junho deste ano, salto expressivo ante os R$ 2 bilhões registrados há cinco anos. A taxa de atrasos escalou de 0,54% para 5,63%, concentrando a maior parte do rombo financeiro entre os produtores de alta renda.


A deterioração do fluxo de caixa e o encarecimento das dívidas atingem fortemente Goiás. Atualmente, o mercado goiano possui cerca de R$ 81 bilhões em estoque de crédito rural. Desse montante, 24% apresentam problemas de liquidez. O levantamento revela que R$ 7,52 bilhões estão em atraso direto e R$ 12,25 bilhões correspondem a operações renegociadas, somando R$ 19,8 bilhões fora do fluxo normal de amortização.


A falta de caixa empurra os produtores para a Justiça. O número de empresas do agronegócio em recuperação judicial cresceu 66% em 12 meses, segundo o Monitor RGF-BizDoc, totalizando 1.263 processos até junho de 2026.


Apenas no primeiro trimestre, o País teve 474 pedidos, alta de 21,9%. Goiás acompanha a tendência e registrou 73 pedidos de reestruturação nos primeiros três meses do ano, o segundo maior volume nacional, atrás apenas de Mato Grosso (135).


A crise remonta aos anos de 2021 e 2022, quando as commodities atingiram preços elevados no mercado internacional. O cenário favorável incentivou parte dos produtores a aumentar a alavancagem financeira, ampliando o crédito para compra de terras e maquinário.


A situação colapsou quando o vencimento das dívidas coincidiu com a alta dos juros, com a Selic a 14%. Somam-se a isso problemas climáticos, queda nos preços dos grãos e elevação dos custos de fertilizantes. Em paralelo, mudanças na Lei de Recuperação e Falência em 2020 e decisões do Superior Tribunal de Justiça facilitaram o acesso de ruralistas aos processos judiciais de proteção de patrimônio.


Retomada de terras e garantias


O agravamento do quadro forçou o mercado financeiro a executar garantias. Somente em 2026, o Banco do Brasil (BB) iniciou a retomada definitiva de mais de 130 imóveis rurais no País. A instituição afirma que prioriza as renegociações e evita a execução quando há outra solução.


Para mitigar calotes, os bancos ampliaram a exigência de alienação fiduciária. Nesse formato, em caso de inadimplência, o credor pode consolidar a propriedade de forma extrajudicial. Entre os grandes produtores atendidos pelo BB, apenas 3% dos contratos da safra 2024/25 utilizavam esse modelo. Na safra seguinte, a fatia saltou para 63%.


Efeito cascata e socorro federal


A crise contaminou o recebimento bancário. Em julho de 2026, apenas cerca de 75% dos produtores rurais pagaram as parcelas no vencimento no BB, índice distante da média histórica da instituição, que oscila de 97% a 98%. A inadimplência acima de 90 dias no agronegócio fechou o segundo trimestre em 6,27%, com saldo problemático de R$ 26,4 bilhões.


A falta de recursos migrou para as despesas pessoais. No BB, a inadimplência na pessoa física em cartões de crédito saltou de 7,10% para 14,58%. O mercado credita parte dessa piora aos ruralistas, que usaram os limites do varejo para tentar compensar a falta de caixa na atividade principal.


Para conter o efeito sistêmico, o governo federal editou a Medida Provisória 1.376, que pode abranger até R$ 30 bilhões em dívidas. O texto permite repactuação de débitos com carência de dois anos, até oito anos para quitação e juros equalizados. O acesso exige laudo técnico que comprove a perda climática ou o impacto da queda de preços na região.

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