IA transforma o campo em Goiás e ajuda produtores a prever riscos e reduzir custos
Tecnologia já é usada para monitorar lavouras, contar rebanhos, prever manutenção de máquinas, orientar decisões e reduzir desperdícios
Jornal Opção

A inteligência artificial deixou de ser uma tecnologia associada apenas aos grandes centros, aos escritórios e às empresas de inovação. No campo, ela começa a ganhar espaço em uma velocidade que já provoca mudanças na maneira como produtores rurais, técnicos, consultores e trabalhadores tomam decisões.
Em Goiás, um dos principais polos do agronegócio brasileiro, a tecnologia ainda está em uma fase de descoberta e experimentação, mas já existem propriedades utilizando ferramentas de inteligência artificial para interpretar imagens, organizar informações, monitorar animais, acompanhar máquinas e até auxiliar no planejamento da produção.
O movimento ocorre em diferentes níveis. De um lado, grandes empresas e propriedades incorporam drones, sensores, sistemas de agricultura de precisão, visão computacional e equipamentos capazes de gerar e processar grandes volumes de dados.
De outro, pequenos e médios produtores começam a ter contato com a tecnologia por meio de ferramentas muito mais simples, principalmente aplicativos que já fazem parte da rotina, como o WhatsApp, além de sistemas capazes de receber mensagens de voz, fotografias e perguntas em linguagem natural.
Para Uaitã Pires, diretor-geral do Hub Cerrado, o agro goiano ainda vive uma espécie de período de adaptação. “Estamos na fase ainda de descobrimento. Não é totalmente estranho, todo mundo tem já uma utilização, mas ainda estamos naquela fase de experimentação e descobrimento”.
A avaliação ajuda a explicar um cenário aparentemente contraditório: a inteligência artificial já está presente em propriedades e empresas do agronegócio, mas ainda não pode ser considerada uma tecnologia universalmente incorporada pelo produtor rural goiano.
O acesso varia conforme o tamanho da propriedade, o nível de profissionalização da gestão, a disponibilidade de internet, a capacidade de investimento e, principalmente, a familiaridade do usuário com ferramentas digitais.
O potencial econômico, entretanto, é expressivo. Um estudo do Reglab sobre o impacto da inteligência artificial na economia brasileira estima que a tecnologia poderá acrescentar até R$ 986,7 bilhões ao Produto Interno Bruto (PIB) do país até 2030.
Na agropecuária, o impacto potencial calculado é de R$ 48,2 bilhões em valor presente. O dado chama atenção por outro motivo: 92% desse impacto no setor agropecuário viria do chamado efeito-capital, isto é, da utilização da inteligência artificial para tornar máquinas, equipamentos e estruturas produtivas mais eficientes.
Isso significa que, no campo, a revolução da IA não necessariamente será protagonizada por um robô substituindo um trabalhador. Ela pode aparecer de maneira mais silenciosa: uma máquina que recebe manutenção antes de quebrar, um drone que identifica uma área da lavoura com problema, uma câmera que estima o peso de um animal sem submetê-lo ao estresse de uma balança, um sistema que identifica focos de incêndio ou uma ferramenta que ajuda o produtor a descobrir onde uma cultura precisa de determinado insumo.
Máquinas que avisam antes de quebrar
Outro campo em que a inteligência artificial começa a mostrar seu potencial é a manutenção de máquinas agrícolas. Sensores instalados em equipamentos conseguem registrar continuamente informações sobre funcionamento, utilização e desempenho. Esses dados podem ser analisados para identificar padrões que indiquem uma possibilidade de falha.
Pedro Camilo afirma que já é possível detectar, por meio de sensores, quando determinado maquinário está sendo utilizado de maneira inadequada e alertar o proprietário sobre a possibilidade de uma manutenção antecipada. O objetivo é evitar que o equipamento quebre justamente durante uma operação importante.
A lógica é conhecida como manutenção preditiva. Em vez de esperar a máquina apresentar um problema, o produtor monitora os sinais emitidos pelo equipamento e programa uma intervenção antes que a falha provoque uma parada.
O estudo do Reglab aponta exatamente esse tipo de aplicação como um dos caminhos pelos quais a inteligência artificial aumenta a eficiência do capital. Uma máquina apoiada por IA pode ter menos necessidade de conserto, consumir menos energia e insumos e operar com maior consistência.
No caso brasileiro, essa característica é especialmente importante para o agronegócio porque a agropecuária possui elevada participação do capital em sua estrutura produtiva.
Segundo o estudo, 81% do valor adicionado do setor corresponde ao capital, enquanto o trabalho representa 19%. Por isso, ganhos de eficiência em máquinas e equipamentos tendem a produzir efeitos significativos sobre a produtividade.


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