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Dentista é indiciado por lesão e exercício ilegal da medicina após paciente perder parte do nariz

Procedimento conhecido por Alectomia deve ser feito apenas por médicos. Mulher teve parte do nariz necrosado e já fez outras 13 cirurgias desde então




Antes e depois da cirurgia no nariz de Elielma Carvalho. À direita, o dentista Igor Leonardo (Foto: Arquivo Pessoal/Elielma Carvalho e Redes Sociais/Igor Leonardo)



Atualizada às 11h15 do dia 23 de janeiro de 2023


O dentista Igor Leonardo Soares Nascimento foi indiciado pela Polícia Civil do Estado de Goiás (PC-GO) pelo exercício ilegal da medicina e por lesão corporal gravíssima após a paciente Elielma Carvalho Braga perder parte do seu nariz em um procedimento estético.


A cirurgia aconteceu em junho de 2020 em Aparecida de Goiânia, Região Metropolitana da capital. O procedimento, conhecido como alectomia, serve para afinar o nariz e não pode ser feito por dentistas, somente por médicos com especialização em cirurgia plástica.


Elielma já realizou diversas cirurgias para reconstrução do nariz e ficou com várias cicatrizes.


Elielma já havia feito uma outra cirurgia com Igor, a bichectomia, no início de 2020, usada para afinar o rosto. Como o primeiro procedimento correu bem, a paciente retornou ao profissional. No entanto, após a alectomia, a paciente disse que começou a sentir um “formigamento” e a região ficou roxa.


Após muitas dores, ela decidiu voltar ao dentista para verificar o que poderia ser feito, então, segundo seu advogado na época, Vinícius Gomes de Jesus, o profissional foi omisso.


Ao POPULAR, Elielma disse que o sentimento é de "justiça feita" e que até hoje precisa de dilatador nasal para conseguir respirar bem. A mulher disse que já fez 13 cirurgias e precisa de, ao menos, mais outras duas. A denúncia foi feita em julho de 2022.


O dentista disse ao POPULAR que os problemas de Elielma se deram por uma rara complicação caracterizada por necrose de tecidos que ocorre após a injeção de medicamentos, chamada de Síndrome de Nicolau.


Segundo o profissional, isso aconteceu após um preenchimento realizado no nariz e não pela cirurgia. Ele alega também que a mulher demorou a buscar sua ajuda, o que piorou a situação.


“Quando ela voltou até mim, três dias depois, já estava ruim a situação. Eu, infelizmente, fiquei de mãos atadas e, por isso, ela sofreu sequelas tão graves”, disse. O dentista informou que pagará a indenização que a Justiça determinar e que se sensibilizou com o caso da mulher e que tem ajudado nas custas dos tratamentos.


Investigação


A PC-GO disse que o inquérito reuniu depoimentos de testemunhas, documentos dos Conselhos Regionais e Federais de Odontologia e Medicina e exames das lesões das vítimas.


A investigação apontou que o dentista, mesmo não possuindo o conhecimento técnico necessário (curso de Medicina com especialização em Cirurgia Plástica ou Otorrinolaringologia) praticou, assumindo o risco, lesão corporal gravíssima na paciente durante a realização de procedimento cirúrgico incisivo.


A polícia informou também que o dentista pratica o procedimento de forma habitual e que, em 2021, foi registrado um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) contra o dentista pelo mesmo crime.


A delegada que investigou o caso, Luíza Veneranda disse que "não há como atestar que as lesões foram em decorrência de uma síndrome rara ou do uso de medicamento, os quais foi até ele que prescreveu" e que os certificados apresentados pelo dentista atestam uma "formação pífia". "Na delegacia, ele disse que tinha quatro especializações. Mas, ao trazer os certificados, eram cursos de curta duração, de final de semana, palestras, congressos. Em 19 anos de profissão, ele tinha só 104 horas de estudo técnico", disse Veneranda.


Laudo


No ano passado, Elielma passou por uma avaliação com o médico cirurgião plástico, Caio Louzada, do Hospital Estadual de Urgências de Aparecida de Goiânia (HUAPA). No laudo, o profissional descreve que a paciente teve uma infecção no rosto “com áreas de necrose”. Após perder parte do nariz, Elielma precisou realizar 13 cirurgias reparadoras e ainda não sabe quantas mais serão necessárias.


O que os conselhos de Medicina e Odontologia dizem


O Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás (Cremego) disse, em 2022, que a alectomia deve ser feita apenas por médicos, que “são profissionais com formação exigida para realização do procedimento com maior segurança”.


O Conselho Regional de Odontologia informou ao g1 Goiás, também na época da denúncia, que “os cirurgiões-dentistas têm autorização para a realização de procedimentos estético-faciais, desde que não sejam cirúrgicos puramente estéticos” e que a alectomia nunca esteve entre os procedimentos listados como permitidos para cirurgiões-dentistas.


Nota do dentista Igor Leonardo


"Sou cirurgião dentista há 19 anos. Especialista em implantes dentários, ortodontia e ortopedia funcional dos maxilares, estética bucal, e harmonização facial avançada.


O problema do caso da Elielma foi uma reação que aconteceu após o procedimento que se chama Síndrome de Nicolau, que é um raro agravamento de vasos sanguíneos após o uso de medicamentos injetáveis. Algo muito raro de acontecer e foi devido ao preenchimento realizado no nariz dela e não pela cirurgia como estão falando.


O fato dela ter demorado muito a buscar minha ajuda após o procedimento agravou muito a situação. Quando ela voltou até mim, que foi 3 dias depois, já estava ruim a situação. E, infelizmente, fiquei de mãos atadas e por isso ela sofreu sequelas tão graves.


Sobre a indenização, o que a Justiça determinar eu o farei. Me sensibilizei muitíssimo com o caso da Elielma e jamais desejei algo de ruim, sempre fiz e farei o melhor pelos meus pacientes.


Não foi a cirurgia que gerou o problema da paciente Elielma.


A Síndrome de Nicolau, também conhecida como Embolia Cutis Medicamentosa e Dermatite Livedóide, é uma rara complicação caracterizada por necrose tecidual que ocorre após a injeção de medicamentos, que foi o caso dela.


Inclusive, a referida paciente teve meu total suporte e apoio nos tratamentos que realizou após este episódio. Me sensibilizei bastante com o problema dela.


Custeei os medicamentos e tratamentos posteriores com outros colegas. Nunca a deixei desamparada em termos financeiros e acompanhei de perto seu tratamento posterior ao ocorrido.


Infelizmente nós profissionais da área estamos sujeitos a intercorrências que não são da nossa vontade.


Sigo à disposição dela sempre que for preciso. E qualquer que seja a decisão judicial eu mesmo farei o possível para colaborar com ela".

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