Brasil registra mais de 3,3 mil tentativas de feminicídio em 2026, alta de 10%
Casos cresceram 10,4% em 2026, enquanto discursos que questionam a violência contra mulheres repercutem no cenário eleitoral
O Hoje

O que acontece quando a violência contra a mulher deixa de ser tratada como um problema e passa a ser questionada até em sua existência? Em um país que registra, em média, 12 tentativas de feminicídio por dia, a pergunta ganha contornos ainda mais graves.
As eleições de 2026 levaram ao Legislativo representantes que se apresentam como antifeministas e questionam a existência do feminicídio, em declarações que continuam provocando reações nas redes sociais.
O contraste ultrapassa as divergências políticas: enquanto se discute um crime previsto em lei, mulheres continuam sendo assassinadas e outras enfrentam consequências que podem acompanhá-las por anos.
Entre janeiro e setembro, o Brasil registrou 1.082 feminicídios, contra 1.133 no mesmo período de 2025, conforme dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. A redução de 4,5% contrasta com o aumento das tentativas, que passaram de 3.035 para 3.350 ocorrências, alta de 10,4%.
Isso representa aproximadamente quatro mortes e 12 tentativas por dia. Em 11 estados, incluindo Goiás, os assassinatos aumentaram, apesar da queda no total nacional.
A diferença entre os indicadores impede que a redução das mortes seja interpretada como sinal de que a violência está controlada. Além dos ataques fatais, milhares de mulheres enfrentam situações que ameaçam suas vidas e cujas consequências nem sempre aparecem nas estatísticas policiais.
A violência em meio ao debate político
O feminicídio não estabelece uma diferença de valor entre a vida de homens e mulheres. A classificação identifica assassinatos cometidos contra mulheres por razões relacionadas à condição feminina, em situações de violência doméstica e familiar ou de menosprezo e discriminação.
Desde 2024, o crime é previsto de forma autônoma no Código Penal, permitindo reconhecer essas circunstâncias e orientar medidas de prevenção.
A presença de representantes que contestam a existência do feminicídio no Legislativo traz à discussão a maneira como a sociedade reconhece a violência de gênero e a responsabilidade de quem ocupa espaços de poder na elaboração de leis e na destinação de recursos para enfrentá-la.
Não se trata de exigir que todas as pessoas compartilhem das mesmas posições. Divergências fazem parte da democracia, inclusive sobre a eficácia das medidas adotadas pelo Estado. Há, porém, uma diferença entre discutir quais ações funcionam e negar a existência de um crime documentado.
Os discursos públicos também merecem atenção quando apresentam o controle e a submissão feminina como comportamentos aceitáveis nas relações afetivas.
Essa percepção pode dificultar o reconhecimento de práticas abusivas. Vigilância constante, restrições ao convívio social, controle financeiro e humilhações não são demonstrações de cuidado. São comportamentos que podem comprometer a autonomia da mulher mesmo antes de uma agressão física.


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